Literatura

Dom Quixote de la Mancha

Dom Quixote de la Mancha

O melhor romance já escrito

O egenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha é o melhor romance já escrito na História da Literatura Universal. Isto é dito por muitos e chancelado por vários grandes escritores da História. Não é por menos, a obra é magnifíca de fato, com grande carga cômica e trágica ao mesmo tempo. O Universo que Cervantes cria enseja muitas interpretações e, como dito por Calvino, referindo-se a porque ler os clássicos: é uma obra que não esgota o que tem a dizer.

Dom Quixote é a história de um homem, Alonso Quijano, na casa dos cinquenta anos, proprietário de uma pequena fazenda na Mancha, Espanha, que possui uma biblioteca com muitos livros de cavalaria, que de tanto os ler, acaba perdendo o juízo e decide ele próprio tornar-se cavaleiro andante. Ele nomeia o seu rocim com o pomposo nome de Rocinante, adota uma dama para dedicar suas façanhas, uma lavradora a quem ele chamará Dulcinéia del Toboso e parte atrás de aventuras. A sua primeira saída resulta em uma surra que ele toma ao confrontar um grupo de mercadores, de modo que retorna a sua casa, mas ainda desejando sair pelo mundo novamente atrás de aventuras. Ele convida, então, um humilde vizinho seu, lavrador, chamado Sancho Pança para ser seu escudeiro, prometendo-lhe premiar com o governo de uma ilha. Os dois saem e a partir de então desenrola-se uma história cheia de eventos cômicos, onde Dom Quixote irá mostrar o grau e o tipo de sua loucura, enquanto Sancho, apesar de ver a loucura do seu amo, não se opõem a segui-lo. No final do primeiro livro, Dom Quixote retorna a sua casa, novamente amuado de uma surra (o coitado apanha muito ao longo da história…), de modo que no segundo livro, após recuperar-se, ele planeja sua terceira saída, esta, com ele já famoso pela Espanha devido a um livro que circula contando as suas façanhas. Este fato faz com que ele se depare com diversas personagens que irão burlar com ele, fingindo acreditar na sua posição de cavaleiro andante. Ao final do segundo livro, Dom Quixote retorna para sua casa, vencido em uma falsa batalha que o obriga a retirar-se, porém, ele adoece e, momentos antes de falecer, recobra seu juízo, ditando seu testamento.

A obra aborda aspectos do contexto do Império Espanhol no início dos anos de 1600. É muito marcante a presença árabe e sua influência na cultura e vida cotidiana das personagens. Cervantes apresenta aspectos de composição literária admiráveis, como narrar a história como se ela fosse um registro do testemunho de outro narrador, Cide Hamete Benengeli, autor mouro cujos escritos o autor da obra que lemos encontrou e os usa como base de sua narração. Tal artifício faz com que a confiança no narrador não possa ser completamente estabelecida, haja visto que os fatos narrados não seriam fontes primárias, podendo ser invenções e distorções. Veremos, séculos mais tarde, o mesmo artifício utilizado por Machado de Assis no livro Esaú e Jacó, narrando uma história, segundo ele, em segunda mão, ao transcrever parte do memorial do Conselheiro Aires. Cervantes ainda brinca com este aspecto da história, quando no segundo livro ele insere o primeiro livro, de Cide Hamete, no Universo de Dom Quixote. O livro é escrito e impresso enquanto Dom Quixote está se recuperando em sua casa no intervalo dos dois volumes. Dom Quixote recebe a informação do bacharel Sansón Carrasco que diz que “as crianças a manuseiam, os moços a leem, os homens a entendem e os velhos a celebram”. Isto se dá, porque quando Cervantes escreve o primeiro volume do Dom Quixote, o publicando em 1605, a obra cai no gosto do público e ganha grande fama. Porém, em 1614, uma falsa continuação do Dom Quixote é publicada e Cervantes, despeitado, escreve e publica em 1615 a verdadeira segunda parte da obra, colocando nela todos estes aspectos da fama real da obra e da falsa continuação. Não à toa que Cervantes mata o Dom Quixote ao fim para não restar dúvidas de que ninguém irá perpetuar falsas continuações.

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