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O segredo para aprender qualquer coisa

O segredo para aprender qualquer coisa

Como alcançar a excelência ao aprender algo

Sempre que me deparei com algo novo e que despertou minha atenção de algum modo, me dediquei a aprender aquilo. Assim foi com os estudos escolares, com o violão, com a computação, xadrez e outras atividades. Meus interesses são variados (quem me conhece, sabe) e o que sustenta tudo isto é a minha curiosidade. Sempre digo que a base de alguém que estuda qualquer área do conhecimento humano é a curiosidade e sendo alguém curioso, me permito esboçar algumas dicas a respeito.

Curiosidade

A curiosidade é algo que se cultiva. Olhar o mundo e buscar entendê-lo. Não na superfície das coisas imediatas, mas "abrir o capô" e ver como é o motor em suas partes, desmontar e remontar, ver que sobraram peças e buscar montar de novo. É um hábito que quanto mais cedo alguém cultiva, melhor será o resultado. Seguindo o paralelo com veículos, na minha infância eu desmontava todos os brinquedos que ganhava. Eu queria ver por dentro, como era e nem passava na minha cabeça que, na realidade, eu os estava estragando.

É certo que alguns desenvolvem desde cedo o hábito da curiosidade. Mas qualquer um pode começar a cultivar esse modo de enxergar o mundo, qualquer que seja sua idade. O indivíduo terá de impor mais esforço, claro, mas certamente é possível desenvolver a curiosidade conscientemente.

Por que exercer a curiosidade? Os motivos são fortes: o mundo é um lugar insensível e hostil, o simples existir nele exige que o exploremos com os instintos atentos; aqueles que buscam conhecer como o mundo funciona, sobrevivem em melhores condições. Mas além do nível de sobrevivência básica, existe o edifício do conhecimento humano, que foi construído ao longo de séculos, tanto para nos auxiliar a compreender o mundo, quanto para nos deleitar com as capacidades do intelecto. Ter curiosidade de saber como este edifício foi construído é um ato filosófico de autodeterminação. Como disse o professor Clóvis de Barros, em um célebre vídeo viral: "Como assim eu não vou entender?". Esse é o espírito da curiosidade: desejar saber. Por este ponto de vista, ter curiosidade e buscar o conhecimento é um ato de orgulho das nossas capacidades, é a manifestação do chamado elã: o entusiasmo por saber, descobrir e eventualmente, criar algo.

Usando a curiosidade a nosso favor

Se você tem curiosidade, você já tem a chave para aprender. Agora precisa praticar a aquisição de conhecimento. Na minha juventude não tive contato com métodos para aprender: simplesmente consumia as fontes do meu desejo de conhecimento até esgotar. E que bom que não impus método algum e nem ninguém me impôs: o conhecimento se forma a partir do caos, por mais contra intuitivo que pareça. Se você tem a curiosidade ativa e tempo, você simplesmente consome tudo o que está ao seu dispor. O conhecimento vai se formando pela dilatação da fronteira entre aquilo que se sabe e aquilo que está no desconhecido Não saber, para alguém que tem curiosidade, causa um desconforto que exige a busca pelo preenchinento desta ignorância. O nome disto é conhecimento à beira do caos.

Porém, o tempo é curto. Nem todo mundo dispõem de intervalos de tempo de sossego e calma para ler e estudar. Esse é um ponto que gera em mim grande frustração e reflexão sobre nossa condição. Me permitam o aparte com os versos de Cruz e Souza, que demonstram esse sentimento que a prisão do mundo nos impõem:

Impotência cruel, ó vã tortura! Ó Força inútil, ansiedade humana! Ó círculos, dantescos da loucura! Ó luta, ó luta secular, insana!

É preciso gerenciar nossa disponibilidade de tempo de maneira eficaz: não há como ler tudo, nem estudar tudo (ó, que lamento!). Aqui precisa-se um método.

Prática deliberada

Você já sabe o que quer aprender, tem a curiosidade e até dispõem de um certo tempo: como começar?

Bom, aqui use do famoso método Jack Estripador: divida em partes. Na verdade, apesar deste nome vulgar que remete ao famigerado serial killer, ele é conhecido cientificamente como metodo cartesiano: divida em partes e comece pelas mais fáceis. Descartes enunciou esta metodologia em sua obra O Discurso do Método na qual expõem quatro regras sobre as quais o conhecimento deve ser gerado: não aceitar nada como verdadeiro se não passou pelo exame da razão; dividir o conhecimento em partes; partir das coisas simples para as complexas e, realizar revisões metódicas, certificando-se que nada foi omitido.

Só que por onde começar se você não sabe nada sobre a área que quer estudar? Como que você seria capaz de dividir em partes um conhecimento que não tem? Bom, há duas saídas: a primeira é procure um mestre, alguém que já sabe e que pode te explicar o caminho; a segunda via, a dos autodidatas é a exploração: explore tudo o que tem disponível sobre o assunto, mesmo sem entender, cedo ou tarde padrões reconhecíveis irão aparecer e você poderá estruturar os seus estudos.

O que expus até agora é a primeira parte do método chamado prática deliberada ou, estudo intencional. Primeiro você mapeia o conhecimento, depois o divide em partes. A sequência ideal é: aborde os tópicos em que você mais tem dificuldade e obtenha feedback imediato. Por exemplo: alguém aprendendo violão, vai esbarrar em dificuldades de ordem técnica como posicionamento das mãos, ataque dos dedos, etc. Indentificando estas dificuldades, o aluno deve explorá-las, repetindo-as até conseguir corrigir seus defeitos. Para comprovar que ele superou é necessário feedback: um mestre, seja ele um professor, alguém mais experiente, uma IA (novidade dos tempos atuais...) ou ainda, o próprio aluno, com seu senso crítico (embora ele corra o risco de nunca perceber por conta própria os seus defeitos ou melhorias).

A prática deliberada é poderosa para qualquer área do conhecimento. É ela que diferencia as personalidades que se destacam muito acima dos demais, como músicos, atletas, cientistas. Muitos podem argumentar sobre talento inato e, até pode ser que seja um fator importante para alguém obter certo sucesso. Mas mesmo aqueles que são privilegiados e possuem o chamado "talento natural", mesmo eles, vão precisar praticar para aprender.

Prioridades...

O grau de sucesso no aprendizado de uma determinada área é proporcional ao tempo investido nesta área com uso da prática deliberada. Apenas praticar, sem intenção, não vai garantir aprendizado a nível de expert. Deste modo, cai por terra o chamado mito das dez mil horas. Exercer uma atividade por anos não torna alguém expert: um sujeito que é, por exemplo, engenheiro de uma empresa há dez anos, não é automaticamente sênior apenas pelo tempo de profissão. Se ele não exerceu a profissão no limite do caos, expandindo a fronteira do conhecimento e praticando de forma deliberada, de nada valeu estes anos em termos de senioridade.

Dedicar tempo para aprender, exercitar as dificuldades e obter feedback é uma tarefa complexa para nossa rotina. Por isso disse antes, que a juventude é a melhor época para aprender: se você nasceu em uma familia funcional e que te garantiu o mínimo de sustento, você teve tempo para explorar a sua curiosidade. Neste ponto, lamento muito àqueles que não conseguem obter esta paz necessária para aprender, por conta das vicissitudes que a vida impõem. Quisera eu que todos explorassem suas capacidades e não houvesse barreiras ao potencial humano...

Na medida que a vida adulta avança e o peso da rotina pesa sobre nós, faz-se necessário definir prioridades: se eu quero aprender um novo idioma, por exemplo, preciso abrir um espaço de tempo inegociável para a prática deliberada. Preciso alocar intervalos de tempo não muito espaçados, pois a memória é outro fator que interfere no aprendizado e somente trilhando um caminho periodicamente é que aprendemos sobre ele.

Dedique tempo, pratique deliberadamente e os resultados virão. Aprender é algo fantástico, melhora nossas habilidades e rejuvenesse nossa mente. Nunca deixe de aprender. Seja curioso, explore o mundo.

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